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A História do MB-3 “Tamoyo” e o Declínio da Indústria de Defesa Brasileira nos anos 90

A indústria de defesa brasileira, apesar dos desafios e da falta de incentivos governamentais, sempre demonstrou criatividade e inovação. Entretanto, muitos projetos promissores foram abandonados ou negligenciados pelo governo, prejudicando não apenas as capacidades de defesa do Brasil, mas também a vitalidade da indústria de defesa nacional.

Dentre os projetos que ficaram apenas no estágio de desenvolvimento, o MB-3 “Tamoyo” da Bernardini é um exemplo notável. Nasceu a partir do projeto brasileiro, derivado do americano M41, e incorporou avanços tecnológicos significativos, sendo armado com um canhão de 90mm ou 105mm. O “Tamoyo” manteve as características do M41, amplamente apreciado pelo Exército Brasileiro.

O projeto teve início em 1982, conhecido inicialmente como X-30. Os primeiros protótipos, como o “Tamoyo I” de 1984, apresentavam características semelhantes ao M41, com suspensão por barras de torção e canhão M32 de 90mm. Entretanto, a evolução do projeto resultou no “Tamoyo III”, marcando uma mudança significativa com a adoção de tecnologias modernas, como blindagem composta, telêmetro laser, visão noturna e térmica, direção de tiro computadorizada e um novo motor Detroit Diesel 8V92TA de 750hp.

A última versão, representando o auge do programa brasileiro, abandonou conceitos antigos, adotando um design moderno e sistemas avançados. O canhão M32 de 90mm foi substituído pelo potente canhão de 105mm L7 Royal Ordnance. Aumentos na blindagem e modificações no chassi elevaram o peso para 31 toneladas.

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Apesar do potencial do “Tamoyo” e da oferta de variantes para atender diferentes necessidades do Exército Brasileiro, o projeto foi cancelado em favor da compra de veículos de segunda mão no exterior. Essa decisão, somada à recusa do Exército em adquirir o ENGESA EE-T1 “Osório”, representou uma grande perda não apenas para as capacidades militares do Brasil, mas também para a indústria de defesa nacional.

A Bernardini ofereceu ao Exército Brasileiro a oportunidade de adotar um blindado médio com participação significativa da indústria nacional, utilizando componentes fabricados no Brasil. A nacionalização de itens como blindagem, sistemas hidráulicos, lagartas, torre, canhão M32 de 90mm e motor Scania DSI14 poderia ter impulsionado a indústria de defesa e preservado conhecimentos estratégicos.

Contribuição Nacional e Desfecho Amargo

A Bernardini não apenas nacionalizou componentes como a blindagem, sistemas hidráulicos, lagartas, torre e o canhão M32 de 90mm, mas também vislumbrou a possibilidade de nacionalizar outros equipamentos importados, dependendo do volume de produção. A recusa do “Tamoyo” em prol de veículos estrangeiros teve impactos profundos, não só prejudicando as capacidades do Exército, mas também desencadeando o declínio do parque industrial de defesa nos anos 90.

Fabricante: Bernardini
Quantidade 3 prototipos e um mock-up
Variantes Tamoyo I
Tamoyo II
Tamoyo III
Especificações
Peso 31 Toneladas
Comprimento 8,8 m
Largura 3,2 m
Altura 2,5 m
Tripulação 4 (comandante, motorista, artilheiro e municiador)
Blindagem do veículo chapas de aço, 70mm / 10mm
Armamento
primário
canhão M32 de 90mm (Tamoyo I e II) ; canhão Royal Ordance L7 de 105mm (Tamoyo III)
Armamento
secundário
Uma Metralhadora Browning M2 .50, coaxial, metralhadora FN MAG 7,62mm, antiaérea e oito lançadores de granadas fumígenas.
Motor Motor Diesel, Scania DSI 14  V-8 com 550hp refrigerado a água (Tamoyo I e II)

Motor Diesel, Detroit Diesel 8V92TA, V-8 com 750hp refrigerado a água (Tamoyo III)

Peso/potência 24,5 hp/ton
Transmissão Alisson CD-500-3 (Tamoyo I), GE HMPT-500-3 (Tamoyo II), Alisson CD-850-6A (Tamoyo III)
Suspensão barra de torção
Autonomia 550 km
Velocidade

Sistemas

68 km/h (estrada) e 30km/h (off-road)

Sistema de proteção QBR
Sistema aquecedor
Sistema de combate a incêndio
Sistema de bombeamento de porão
Sistema de Comunicação
Escotilha de escape inferiorPeriscópio com amplificação de visão residual,
telémetro laser
Computador de tiro
Execução de tiro de canhão e metralhadora coaxial pelo comandante ou atirador
Na versão III: Equipamentos de direção de tiro com computador
Visão noturna e térmica
Estabilização primária por sistema totalmente elétrico.

Impactos a Longo Prazo e Reflexões Necessárias

O cancelamento do “Tamoyo” e a preferência por veículos estrangeiros resultaram em perdas duradouras. A falta de investimento na inovação nacional comprometeu não apenas a capacidade defensiva do Brasil, mas também minou a independência estratégica. À medida que revisitamos essas decisões passadas, é imperativo refletir sobre políticas que impulsionem a inovação e a autonomia na indústria de defesa brasileira, para que o lamento pela inovação perdida nos anos 90 não se torne uma constante na história nacional.

Hoje acompanhamos o descaso comum desde a redemocratização no que se refere as nossas Forças Armadas e a Base Industrial de Defesa, o que esperávamos ter mudado no final da primeira década dos anos 2000, onde vimos ganhar forma importantes programas estratégicos, porém, novamente temos nos deparado com o descaso e os recursos insuficientes destinados a área de defesa, ignorando sua importância não apenas estratégica, mas também a sua participação na economia brasileira, a qual tem capacidade de gerar milhares de empregos e impulsionar a nossa economia, que seja pelo retorno em arrecadação de impostos, quer seja no lucro com as exportações.

A pergunta que fica: Quando teremos um governo responsável e com políticas de estado no que se refere a defesa e economia?

por Angelo Nicolaci

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