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Os papéis funcionais do comandante

O exercício do comando, de uma forma abrangente e sob uma perspectiva didática, como bem descrito pelo General Coutinho na sua obra “Exercício do Comando – A Chefia e a Liderança Militares”, desenvolve-se em três situações gerais: de guarnição, campanha ou crise. No Exército Brasileiro (EB), instituição organizada pela nação brasileira com base na conscrição, é a sua estrutura de comando que dirige o processo cíclico de transformação de suas organizações militares operacionais da situação de guarnição para a de campanha.

Posto isso, este texto tem por finalidade descrever sumariamente a ação de comando do comandante de Organização Militar (OM) nível unidade e subunidade, desdobrando-a em papéis funcionais que o levam, partindo de uma situação de guarnição, a configurar sua OM para a atuação em campanha. A intenção, em outros termos, é procurar discorrer sobre os papéis que ele desempenha, tanto de forma isolada quanto sobrepostos, no processo global pelo qual constitui, com os meios materiais e recursos humanos postos sob sua direção e controle, a Força a ser mantida efetiva e coesa no contato com o fogo do inimigo.

A situação de “guarnição” corresponde à existência da OM em tempo de paz em que prevalecem as ações de ordem administrativa, voltadas prioritariamente para o preparo da Força.

Já a de “campanha” corresponde à guerra, ou seja, ao emprego da OM no campo de batalha, onde as maiores preocupações do comandante são de ordem operacionais e/ou táticas. Sendo assim, são dirigidas ao emprego da Força em um ambiente de caos, morte e destruição, com vistas a derrotar o inimigo e alcançar a vitória.

As situações de “crise”, por sua vez, correspondem às circunstâncias fora do comum e graves, com sérias consequências e danos, por vezes irreparáveis, que demandam do comandante excepcional desempenho. O desastre, desencadeado por fenômenos naturais ou provocado pelo inimigo, o pânico e a rendição são alguns exemplos que podem ser apontados.

É certo que, em todas as situações indicadas, o exercício do comando compreende a condução dos subordinados, uma ação criadora de relações comandante-comandados, as quais, sendo intersubjetivas, revestem-se de características psicológicas e culturais.

Por outro lado, vale ressaltar também que o termo “comando”, no presente texto, não se refere à condução de pessoas, mas à condução de forças, ou seja, de formações e agrupamentos voltados para a realização de operações militares. Dessa forma, é possível inferir que a constituição e preservação de formações compostas por indivíduos para a realização de atividades no campo operacional militar são condições necessárias para o EB no seu processo cíclico de preparação para a guerra.

Dando prosseguimento, tomemos a seguinte definição do termo “comandante”:

Conduzir homens e mulheres é a tarefa primordial e contínua, pois esta autoridade tem que guiá-los e educá-los com o propósito de formar um só organismo, forte e aglutinado o bastante para suportar as forças dissociativas e dispersivas da zona de combate. É nesta atividade funcional que se avança no papel de líder militar.

Constituído o conjunto orgânico de indivíduos, o processo, simultâneo em suas direções, passa a comportar a formação dos laços afetivos e psíquicos que consubstanciarão o “espírito de corpo”, termo empregado para expressar que a tropa estará animada a agir como se fosse um só ser. É nesta fase que os papéis de arquiteto, sacerdote e governante, todos relacionados ao espírito humano existente nas relações comandante-comandados, se fazem presentes.

Chegando ao ápice do processo, ou seja, quando todas as forças do ser estão em ação, prontas para serem empregadas no combate, desponta o papel de chefe militar para as dirigir e controlar. Dialogando com Coutinho, Courtois, Gavet, Marshall e Scruton, façamos os cortes no processo e vejamos o primeiro destes papéis.

Papel de Líder Militar

O oficial, diante da organização para a qual foi nomeado comandante, é, por princípio dinâmico, a força, o motor que movimenta/motiva suas engrenagens tanto para a vida vegetativa quanto, e principalmente, para o cumprimento da missão no campo de batalha. Tais engrenagens, em síntese, são constituídas por recursos materiais operados pelos seus subordinados, pessoas com vontade, liberdade, inteligência e iniciativa. E são estas pessoas o coração da sua OM.

Sendo assim, graças à autoridade na qual é investido, somada à respectiva competência profissional, ele exerce inicialmente uma força centrípeta sobre seus subordinados, aglutinando-os. Esta força, conhecida como reputação, gera respeito e confiança nos comandados, fazendo com que suas mentes fiquem receptivas ao seu papel de líder militar.

Neste papel, pratica então, de modo constante, sua habilidade para influenciá-los nos planos afetivo6 e intelectivo com vistas a obter deles a adesão à missão e o envolvimento pessoal e coletivo no seu cumprimento. Os liderados, por sua vez, quando impactados por tal ação, expressam estar motivados em comportamentos, atitudes, sentimentos e atos objetivos que favoreçam o sucesso ou a melhor realização da missão.

Realizado este movimento, obtida a adesão com envolvimento pessoal, cabe agora conformar espiritualmente este corpo para torná-lo coeso o bastante para, com a máxima efetividade, suportar e vencer as agruras do combate.

 

Por General de Brigada R1 Severino de Ramos Bento da Paixão – Formado na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) em 1983. Cursou a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) em 2000/01. Foi instrutor da AMAN e da ECEME. Comandou a 1a Bateria de Cadetes (AMAN) e o 16o Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado (16o GAC AP), em São Leopoldo-RS. Possui mestrado em Ciências Militares pela ECEME (2001) e em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (2008). Foi Oficial de Ligação na Missão de Verificação das Nações Unidas para a Guatemala (MINUGUA). Exerceu a função de Adido do Exército junto às Embaixadas da China, Coreia do Sul e Vietnã. Comandou a Artilharia Divisionária da 3a Divisão do Exército (AD/3), em Cruz Alta-RS. Como última função no serviço ativo, foi Diretor do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (DPHCEx).

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