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O custo do efeito desejado do apoio de fogo

O combate moderno busca atingir um estado final desejado (EFD) que, quando atingido, indica que a missão recebida foi efetivamente cumprida. Para alcançar esse EFD, são determinados objetivos que caracterizam a superação dos óbices e/ou das questões que impedem chegar ao EFD. O problema a ser enfrentado pode ter várias facetas, e a conquista de determinada parte do terreno costuma representar um ponto decisivo a ser garantido pela Força Terrestre. Para garantir essa conquista, é utilizada uma conjunção de fogo e manobra a fim de aplicar o poder militar terrestre em um dado instante, visando a obter uma vantagem militar.

A Força Terrestre, em seu esforço para cumprir os objetivos que lhes foram atribuídos, elenca alvos compensadores. Um alvo pode ser entendido como o objeto sobre o qual é aplicado um determinado esforço, e normalmente é uma estrutura ou organização que confere ao inimigo uma vantagem militar nítida e certa. A função de combate fogos congrega os vetores com capacidade de provocar efeitos sobre esses alvos.

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Os efeitos desejados sobre os alvos são determinados pelo comando da Força quando do estabelecimento da linha de ação a ser desencadeada. A integração dos fogos com a manobra passa pela correta determinação dos efeitos a serem provocados e pela definição sobre qual tropa será responsável por obter esses efeitos em um dado momento. A aplicação de força sobre um espaço em um tempo específico tem sido compreendida como a chave para o sucesso de uma operação ou de uma campanha.

As capacidades disponíveis ao decisor devem ser analisadas em função das suas possibilidades e limitações, do tempo necessário para se atingir o alvo, dos custos necessários para o emprego do vetor, dos riscos inerentes à utilização de determinada arma, das prováveis consequências advindas do emprego do vetor e de outros aspectos levantados pelos decisores e seus assessores. Desses fatores, o custo do emprego e o risco de perda do vetor são muito relevantes para determinar se sistemas de apoio de fogo mais complexos devem ou não ser empregados.

Entre os meios de apoio de fogo disponíveis para a Força Terrestre, o Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300) está em fase final de desenvolvimento. Ele dotará a Força com uma capacidade de projetar poder pelo fogo, a uma distância de 300 km, sem a necessidade de empregar aeronaves, eliminando os riscos de perdas humanas e materiais decorrentes do emprego da aviação.

O MTC pode bater alvos táticos, operacionais e estratégicos em proveito da Força Terrestre Componente (FTC) ou dos comandos superiores. Após consolidado o custo do desenvolvimento do projeto, estima-se que cada míssil tenha um custo aproximado de R$ 12 milhões. Dessa forma, surgirá uma questão a ser respondida pelos decisores: o efeito desejado supera em valor o custo do vetor a ser utilizado?

Quando os alvos são estratégicos ou operacionais, e suas perdas causam um dano substancial ao inimigo, a decisão de se empregar uma arma de custo tão elevado se justifica mais facilmente. Destruir uma refinaria de petróleo utilizada para sustentar o esforço de guerra do inimigo, degradar a capacidade de operação de um porto que recebe material bélico vindo do exterior ou fazer cessar a operação de uma unidade fabril de produção de munições são efeitos que possuem um valor significativo e justificariam o emprego do MTC pela ótica do custo.

No caso dos alvos se tornarem mais táticos, a situação começa a ficar mais nebulosa, e a atribuição de valor suficientemente significativo aos efeitos desejados deixa de ser tácita. Valeria a pena empregar um MTC para neutralizar um posto de comando (PC) de uma Divisão de Exército Inimiga? O MTC seria empregado para destruir um PC de uma brigada? De qualquer brigada?

Da mesma forma que o preço é uma tentativa de expressar o valor de algo em termos monetários, os decisores terão que avaliar se a vantagem militar da neutralização ou destruição de determinado alvo supera os custos do emprego de um MTC.

A realidade econômica do Brasil aponta para a racionalização de recursos e para o uso judicioso dos meios disponíveis para as Forças Armadas. Mesmo em uma situação de conflito bélico, a expressão econômica do poder nacional continua a balizar os limites da expressão militar. Uma guerra só pode ser travada enquanto houver fôlego financeiro para suportar o esforço de guerra.

Dado o limite orçamentário imposto a um esforço de guerra, qual seria a dotação orgânica do MTC? É possível pensar que cada grupo de mísseis e foguetes (GMF) teria, pelo menos, um MTC para ser disparado por dia. Nesse sentido, 30 dias de combate teriam o consumo de R$ 720 milhões para que cada GMF consiga bater um alvo pontual por dia. Caso se deseje disponibilizar essa capacidade para cada bateria, esse valor saltaria para R$ 2,16 bilhões. Esse valor representa quase 20% da ajuda financeira que a European Peace Facility, organismo de promoção da paz da União Europeia (UE), prestou à Ucrânia de fevereiro a julho de 2022, segundo dados do sítio oficial da UE na rede mundial de computadores.

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Mesmo com o MTC à disposição, a Força Terrestre deve continuar a aumentar o leque dos vetores capazes de provocar efeitos sobre o inimigo, sejam eles atuadores cinéticos ou não cinéticos. O ataque cibernético, por exemplo, pode garantir à Força Terrestre a capacidade de atingir alvos longínquos com custos mais módicos, desde que tenha havido a exploração cibernética prévia necessária para bater esses alvos. O princípio de guerra da economia de meios continuará válido em qualquer conflito, e o emprego judicioso do MTC representa uma aplicação correta desse guia.

A dissuasão estratégica alcançada com o desenvolvimento do MTC representa um salto de qualidade na capacidade da Força Terrestre brasileira. Levando-se em consideração o seu custo de aquisição, seu emprego será vocacionado para alvos que representem a obtenção de uma vantagem muito significativa, deixando alvos mais táticos para serem batidos por outros sistemas de armas ou atuadores não cinéticos.

 

Por: Major de Artilharia Diogo Luiz Oliveira de Andrade é da turma de 2005 da AMAN. É mestre em Ciências Militares pela EsAO e integra o Quadro de Estado-Maior da Ativa. Completou o Curso de Armas Combinadas na Bolívia, o Curso de Arilharia de Campanha para capitães nos EUA e o Curso de Planejamento do Sistema de Mísseis e Foguetes para Oficiais do QEMA. É bacharel em Ciências Econômicas pela AEDB e, atualmente, exerce a função de Oficial de Operações do Centro de Defesa Cibernética.

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