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Forças Armadas preparam mulheres para missões de paz da ONU

Para fomentar conhecimento e engajar cada vez mais a participação feminina em missões de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), o Centro de Operações de Paz de Caráter Naval (COpPazNav), da Marinha do Brasil, promoveu o 10° Curso de Operações de Paz para Mulheres âmbito internacional. Ao todo, 59 mulheres, entre civis e militares, brasileiras e estrangeiras, participaram dessa capacitação, que se encerrou na última sexta-feira (30).

Segundo a representante do Secretário-Geral da ONU, Silvia Rucks, Coordenadora Residente da Organização das Nações Unidas no Brasil, a presença de mulheres das Forças Armadas é essencial para a consolidação da paz. “A participação efetiva de mulheres nas missões de paz das Nações Unidas é essencial para a prevenção de conflitos e a consolidação da paz. Elas têm capacidades e habilidades específicas que favorecem a promoção de direitos humanos, a proteção a civis e maior acesso às comunidades o que contribuem significativamente para a paz e a segurança. Por isso, é preciso intensificar os esforços para assegurar maior participação e representação das mulheres no âmbito das missões e processos de paz no mundo”, ressaltou.

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O Estágio, ministrado em inglês, foi dividido em duas etapas, sendo a primeira à distância, de 14 a 21 de junho, com a abordagem de todo o conteúdo do Core Pre-Deployment Training Materials (CPTM). Já a segunda etapa, entre os dias 26 e 30 de junho, foi presencial com palestras e atividades práticas no Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo (CIASC), no Rio de Janeiro.

A ex-militar temporária da Marinha, Ana Carolina Seabra, 37 anos, descobriu atuando como assessora de comunicação, por quatro meses, na Operação Acolhida, que queria se dedicar às missões de paz. “Eu participei do segundo contingente da Operação Acolhida em 2018, eu fazia intercâmbio entre a fronteira do Brasil com a Venezuela e Boa Vista. Lá eu tive a oportunidade de conhecer o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, depois eu fiz uma viagem e visitei a sede da ONU, em Nova York. A partir disso, comecei a me inteirar sobre o que era exatamente uma missão de paz, e como eu poderia contribuir. Aí eu fiz o primeiro curso de Operação de paz para mulheres em âmbito nacional, e agora eu fiz esse curso, em âmbito internacional, que promoveu um encontro com várias mulheres de 11 países diferentes para poder conhecer a realidade delas, para que elas possam falar como é que eles tratam determinados assuntos que são sensíveis e que são inerentes ao nosso sexo feminino, bem como ouvir os desafios que elas encontraram, como elas superaram e como podemos contribuir para melhorar”, enfatizou.

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Desde 2018, o COpPazNav já capacitou 361 mulheres para atuar em operações de manutenção da paz da ONU em turmas nacionais e internacionais. Na oportunidade, a Tenente -Coronel e Intendente Luanda dos Santos Bastos da Aeronáutica ressaltou a importância de capacitar as mulheres. “Ser instrutora do Centro me permitiu compartilhar lições aprendidas das minhas experiências no terreno, buscando incentivar, motivar e capacitar as alunas do curso para participar de operações de Paz, além de reforçar a implementação da agenda Mulher, Paz e Segurança”, assinalou.

Vale ressaltar que o Brasil possui dois centros de excelência de capacitação para as operações de paz, sendo eles o Centro de Operações de Paz de Caráter Naval (COpPazNav) e o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), que preparam militares, policiais e civis, brasileiros e estrangeiros, para missões dessa natureza.

As alunas participaram de instruções práticas e de palestras por videoconferência com algumas mulheres que estão em operações de paz da ONU. Ainda, tiveram a oportunidade de realizar exercícios como a pista de liderança, que desenvolve e aprimora capacidades do líder para superar situações de estresse e de adversidades. Além de um simulador de tiro; centro de simulação de orientação no terreno; navegação terrestre, e ainda conheceram um mostruário dos meios de fuzileiros navais.

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Mariana Pedroza de Albuquerque, 22 anos, jornalista, falou sobre a pressão das atividades práticas. “Terça e quinta, e um pouquinho de sexta-feira, a gente viu o que de fato é uma prática na pista de liderança. Teve a simulação de fazer um resgate em população ribeirinha, por exemplo, que tem que passar por uma lagoa. Teve um avião que caiu e a gente salvou um paciente, um militar, a simulação de aquela área estar em conflito, e energizada, a gente teve que passar com pneu. Foram dez simulações, a gente teve que se unir como equipe, nós, mulheres, para entendermos como acontece na prática”, contou.

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Estágios – O Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1325, em 2000, criando a agenda “Mulheres, paz e segurança”, que incentiva a maior participação da mulher na construção da paz, a proteção dos direitos humanos e a promoção do acesso à justiça e aos serviços para enfrentar a discriminação.

Foi pensando nessa resolução, que o CCOPAB, do Exército Brasileiro, no Rio de Janeiro, proporciona anualmente o curso “Estágio de Preparação Específica de Militares do Segmento Feminino para Operações de Paz”. Este ano, a capacitação ocorrerá de 20 de novembro a 1 de dezembro. O objetivo é preparar as estagiárias para as missões de paz complexas, exigindo, de forma prática, o controle emocional e a resistência à fadiga em situações adversas.

A Capitão Camila Paiva do Exército Brasileiro é instrutora do Centro e disse que desde 2017 vem testemunhando o aumento da participação feminina nos diversos cursos e estágios. “Podemos nos indagar sobre os motivos dessa crescente, mas a resposta no meu entendimento é bem clara, simples e objetiva é demanda operacional. O que eu quero dizer com isso? Em uma área de conflito, a mulher tem mais facilidade em acessar informações sensíveis e de grande relevância com mulheres locais, que por diversos motivos, mas, principalmente, por questões culturais não devem e não podem falar com homens não pertencentes a suas etnias, as suas comunidades e aos seus vilarejos Essas mulheres locais possuem dados importantíssimos que podem subsidiar a ação militar para o cumprimento do mandato da missão”, ressaltou.

Recentemente, a Comandante da Força de Defesa da Guiana Shenel Europe concluiu o Estágio de Coordenação Civil-Militar (CIMIC), no CCOPAB, que difundiu conhecimentos, em nível tático, para o desempenho das funções relacionadas à coordenação de atividades nas operações de manutenção da paz, emergências complexas e desastres naturais em ambientes inseguros, no âmbito das Nações Unidas. “Após essa experiência profissional, minha expectativa é poder regressar ao meu país e ajudar a transmitir este conhecimento que me foi fornecido a pessoas da Força de Defesa da Guiana que desejam tornar-se Oficiais CIMIC. Esta foi a minha primeira seleção para um treinamento da ONU. Sou muito grata!”, assinalou.

O CCOPAB oferta diversas capacitações que possuem a participação de mulheres. Kamila Ágatha Lovizon, jornalista, 38 anos, já fez o estágio para a imprensa em territórios hostis, em 2018, e almeja criar um time de correspondentes em missões de paz. “A vivência em conjunto com um contingente ou um observador prospecta mais informações do que possamos imaginar. Quando você não é militar, ou quando vai como jornalista, seu trabalho único e exclusivo é perceber tudo ao seu redor. Nossos militares são treinados para nossa proteção. Com isso, há um sonho em mim de quem sabe, criar um time de correspondentes em missões militares. Trazer luz a esse honroso trabalho e tirá-lo da subnotificação da imprensa tradicional. Todos os cursos do CCOPAB são importantes e trazem exemplos realistas de uma situação em campo, auxiliando o modo de agir, estando em uma missão, é o diferencial”.

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Experiência – Com o histórico de mais de 70 anos de participação em missões de paz, o Ministério da Defesa e as Forças Armadas investem, constantemente, em iniciativas para a ampliação do número de mulheres em seus quadros. A iniciativa está em consonância com a Política Nacional de Defesa, documento que orienta os esforços da sociedade e estabelece objetivos para garantir a soberania nacional, no caso específico, na área da diplomacia e na cooperação em prol da estabilidade regional e da paz mundial.

Por 6 meses, a Capitão-Tenente Débora Ferreira de Freitas Sabino da Marinha do Brasil, atuou no 25° Contingente do Grupamento de Fuzileiros Navais no Haiti e contou sua experiência. “Quando fomos fazer a entrega de medicamentos em uma instituição católica, localizada no Sul do Haiti, nos deparamos com um cenário de muita destruição, porém encontramos uma população receptiva e esperançosa por tempos melhores. Isso muito me comoveu, pois apesar de ser um povo que sofre várias intempéries, mantém viva a alegria de viver”. Ela também fez um trabalho humanitário com as crianças com deficiência no Haiti. “Essa atividade específica foi em conjunto com o Exército e os militares das Filipinas. Os padres responsáveis eram das Filipinas e realizam o acolhimento de crianças deficientes que são abandonadas para morrer por suas famílias. São crianças com hidrocefalia, má formação e crianças com algum tipo de deficiência neurológica. Nos 6 meses, eu visitei 2 vezes esse orfanato, fornecendo corte de cabelo, atividades lúdicas e atendimento médico e odontológico. Em média, eram umas 45 crianças/adolescentes como internas”, acrescentou.

Em 2022, O Brasil superou o percentual de 20% do efetivo total de agentes de segurança formado por mulheres para atuar em missões internacionais de paz da ONU. O número ficou acima da estratégia de paridade de gênero criada pela organização ꟷ “Estratégia de Paridade de Gênero Unificada” 2018-2028 ꟷ sobre participação de mulheres, por país contribuinte, nas missões individuais e que fixou um mínimo de 19% do efetivo total, até chegar a 25% em 2028. O tema “Igualdade de Gênero” é um dos objetivos de desenvolvimento sustentáveis da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

A Major do Exército Brasileiro Gabriela Rocha Bernardes participou da Missão Integrada das Nações Unidas de Assistência Transição no Sudão, a UNITAMS, por um ano. Anteriormente, a Major também foi duas vezes ao Haiti para cobrir o trabalho das tropas brasileiras. “A minha participação na UNITAMS foi realmente muito marcante, tanto para a minha vida pessoal quanto para a minha vida profissional, porque eu fui preparada, fui para participar de um processo de paz e acabei saindo de lá no meio de um conflito. Não é o que a gente espera, mas pode e aconteceu nesse caso. Eu ter saído do Brasil treinada foi fundamental para a minha permanência lá, principalmente no momento de crise em que a gente precisou gerenciar e aguentar toda a situação de insegurança que a gente vivenciou, de restrição de controle de alimentação, de água, enfim, combustível para geradoras, a gente estava sem luz e, obviamente, sem saber o que iria acontecer. A gente sai muito bem-preparado aqui do Brasil e consegue colocar na prática, no terreno, aquilo que se espera”, relatou.

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Nesse contexto, a participação feminina nessas capacitações e em outras atividades específicas de preparo tem o objetivo de aumentar a quantidade das peacekeepers brasileiras nas operações de paz. Além disso, a ampliação das oportunidades de treinamento para esse segmento tem contribuído para o incremento da qualidade e eficiência da atuação dos nossos recursos humanos de forma mais plena, igualitária e significativa nas missões da ONU, fortalecendo o avanço dessa iniciativa em âmbito nacional e internacional.

A Tenente-Coronel Luanda dos Santos Bastos, além de ministrar as capacitações, também participou de duas missões de paz, ambas com duração de 12 meses. Em 2017 foi na Missão das Nações Unidas-União Africana no Darfur (UNAMID) e, em 2021 estava no Congo. Ela contou que viveu duas realidades diferentes e experiências marcantes “inúmeras coisas que me chamaram a atenção, como, por exemplo, quando eu vi as mulheres africanas carregando toras de madeira, para fazer comida. As toras eram pesadas, cerca de 20, 30 quilos, eu ficava me imaginando naquela situação. Outro exemplo foi quando conversei com umas locais sobre violência sexual e uma delas que falou como que eu vou denunciar, se a própria Polícia Nacional e as Forças Nacionais cometiam esse tipo de crime contra a população, especialmente contra as mulheres”. Já no Congo, o ambiente era hostil. “No Congo foi um choque, porque eu estou indo para um país para tentar ajudar as pessoas, fazer o meu trabalho. Eles jogavam pedra na gente, não queriam falar, eram ríspidos, a gente tinha que tentar de alguma forma quebrar essa barreira e era muito difícil, então isso me chocou”, finalizou.

Por Carolina Militão

Fonte Ministério da Defesa

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