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Brasil produz menos urânio do que consome

A questão do combustível para as usinas nucleares brasileiras foi tema de debate no segundo dia (22/11) do XIV Seminário Internacional de Energia Nuclear, realizado no Rio de Janeiro. No painel Combustível nuclear – potencial exportador x demanda internacional / parcerias na mineração, Felipe Tavares (geólogo e coordenador de Economia Circular da Companhia de Pesquisa de Recursos Mineirais – CPRM) disse que o Brasil produz menos urânio do que consome. Ou seja, temos que importá-lo.

– Não temos conhecimento do tamanho das nossas jazidas de urânio. Isso vai gerar instabilidade no programa nuclear no futuro – previu.

Felipe disse que a demanda internacional por urânio tem aumentado muito, o que tem tornado viáveis os depósitos de extração mais cara (mais profundos). O Brasil, porém, prospectou apenas uma fração do seu território. E mesmo essa área deve passar por nova pesquisa, dessa vez com tecnologia mais atual. No ranking internacional de reservas do mineral, o Brasil figura na oitava posição, com 5%. Especialistas arriscam que as jazidas nacionais podem ser muito maiores.

– Como o Brasil tem reservas inexploradas, no cenário atual isso pode se tornar uma vantagem. Já que temos minas de extração mais baratas. Precisamos refletir sobre a expansão das nossas jazidas – sugeriu.

Outro obstáculo na marcha da implementação da energia nuclear no país é o horizonte de curtíssimo prazo dos nossos planejamentos. No painel O futuro de Angra 3 e Angra 4 – perspectivas, status da obra, modelagem, novos sítios e plantas, Marcelo Gomes (chefe da assessoria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Expansão da Eletronuclear) relatou debates que testemunhou para incluir Angra 3 no PAC. Ele contou que interlocutores do governo argumentavam que seria difícil defender a obra, pois os reservatórios das hidrelétricas estavam cheios e, a energia, sobrando.

– Respondemos que não poderíamos tratar de um projeto com décadas de maturação a partir de um instantâneo. A situação pode estar assim neste ano, mas ano que vem pode não estar mais. Neste momento, mesmo com os reservatórios cheios, estamos tendo que usar as termelétricas – disse Marcelo.

Marcelo fez um levantamento bandeiras tarifárias até meados deste ano. Pesquisou dados de 101 meses desde 2015. A conclusão é que tivemos 41 meses com bandeira vermelha e 15 com bandeira amarela. Ou seja, em 55% do tempo, estivemos sob algum tipo de bandeira. Portanto, avaliou Marcelo, a presença da bandeira tarifária é a regra, e não exceção. ´

– É esse o espaço que a energia nuclear tem para crescer no Brasil. Essas decisões do setor de energia têm que considerar o longo prazo, e se fazem com décadas de antecedência, e não com base em fotos momentâneas que tenham uma vida de prateleira muito curta. Por isso, não dá para ficar fazendo apostas – alertou.

Dinheiro e mão de obra qualificada são duas questões importantes para a aceleração do programa nuclear brasileiro, alertou Antonio Muller (membro do Conselho Empresarial de Energia Elétrica da Firjan). Ele lembrou que a geração que trabalhou na construção das primeiras usinas nucleares está aposentada ou desistiu e faz outra coisa. O risco que corremos, disse Marcelo, é o de perdermos todo o conhecimento acumulado com trabalho duro por esse pessoal, e não conseguirmos passá-lo para os que estão chegando agora.

– Nós voltamos anos para trás. Temos que começar a criar cultura nuclear nas empresas privadas novamente – incentivou.

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