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BID Brasil – Conversamos com Cesar Silva, CEO da Akaer,

Abrindo uma série na qual pretendemos no GBN Defense e Brasil Defesa, apresentar ao nosso público um pouco melhor nossa Base Industrial de Defesa (BID), afim de demonstrar o potencial da indústria nacional, seus desafios e a importância de se construir uma mentalidade voltada ao investimento neste setor que movimenta bilhões, gerando empregos e renda para nossa nação, lembrando a necessidade de possuirmos uma postura condizente com os desafios que o mundo nos impõe, iniciamos a série “Conhecendo a BID”, entrevistando Cesar Silva, CEO da AKAER, uma empresa estratégica nacional que tem se destacado pela sua capacidade técnica, inovação e ousadia, logrando sucesso na exportação de engenharia.

Primeiramente quero agradecer Cesar, por nos disponibilizar um pouco do seu tempo, afim de conversarmos um pouco sobre a AKAER e os desafios do mercado para a indústria nacional de defesa.

E para começar, lembramos que a Akaer teve um importante papel no desenvolvimento das aeroestruturas do Gripen. Como a absorção de tecnologia proporcionada pela experiência no Gripen impactou na Akaer?

Cesar Silva – Tecnologia é uma estrada, um caminho, não um pacote finito. Se pensarmos apenas do ponto de vista técnico houve ganhos pontuais principalmente associados à oportunidade de trabalhar efetivamente no desenvolvimento do Gripen E/F onde fornecemos mais de 750 mil horas de engenharia de produto, sistemas e manufatura. Porém os ganhos vão muito além, a participação integrada neste desenvolvimento trouxe ao time da Akaer a experiência em produtos altamente complexos operados com requisitos muito exigentes. Trouxe também a oportunidade de adequar a empresa para trabalhar em ambientes seguros e com integração de sistemas.

Antes mesmo da definição do programa FX-2, a Akaer já atuava no desenvolvimento do Gripen, como parceira da sueca Saab no programa Gripen NG. O que levou a essa parceria?

Cesar Silva – Em 2009, enquanto buscava potenciais parceiros / fornecedores para o programa de offset a ser ofertado no projeto FX-2, a Saab visitou a Akaer e vislumbrou uma oportunidade que ia além disso. Eles tinham a necessidade de estruturar em um curto espaço de tempo um time integrado para atender ao desafio de desenvolver um novo avião que praticamente só tinha o nome em comum com as versões anteriores.

A combinação da necessidade complementar de engenharia com a experiência prévia e uma equipe treinada nas técnicas mais modernas de desenvolvimento de produtos aeronáuticos criou o ambiente perfeito para uma colaboração longa e exitosa.

Cesar, quais os principais ganhos obtidos através do Gripen NG, e como isso reflete hoje nos resultados obtidos pela Akaer?

Cesar Silva – Não é exagero dizer que este programa e a relação com a Saab foi um dos pilares que ergueram e sustentaram o crescimento e reposicionamento da Akaer. Além da carga de trabalho em si, a parceria exigiu uma maturidade empresarial e nível de governança que permitiram à Akaer se posicionar com destaque no mercado global.

Além da identificação da oportunidade no desenvolvimento do caça sueco, outra aposta foi feita pela Akaer no campo de estruturas, com a revitalização do conjunto de asas do P-3. Como surgiu essa ousada iniciativa de buscar no mercado o ferramental e conhecimento para ofertar à FAB a revitalização das asas do P-3AM?

Cesar Silva – Durante anos houve vários movimentos por parte da FAB na busca de uma solução razoável para permitir a extensão da vida operacional da frota de vigilância marítima do Brasil. De uma forma geral as possíveis soluções esbarravam em restrições, muitas delas simultâneas, tais como orçamento, disponibilidade dos recursos internacionais, disponibilidade de materiais, e mesmo interesse dos fornecedores internacionais. 

Diante deste cenário, começamos a fazer o que fazemos de melhor, buscar uma solução fora do convencional, aliando nossas capacidades técnicas com as soluções parciais disponíveis no mercado.

Na realidade, o ferramental e material em estoque disponível na L-3 já havia sido ofertado para a FAB após a decisão da Navy ter cancelado o programa de modernização dos aviões de sua frota e a substituição pelo P-8. Este material estava a ponto de ser sucateado e estava abandonado ao tempo nos galpões desativados da L-3 em Waco.

O que houve de diferente é que enxergamos a possibilidade de recomissionar o ferramental já bastante deteriorado e, principalmente, assumir a responsabilidade por executar todas as operações a partir da documentação e processos fragmentados disponíveis pela US Navy e L-3.

Como foi o desafio de consolidar toda documentação obtida junto a L3 e obter a capacidade de não só revitalizar, mas também construir um conjunto de asas do P-3 se necessário?

Cesar Silva – Acredito que a melhor maneira de descrever é que recebemos todas as peças e documentos necessários para realizarmos as operações e montarmos o quebra-cabeça. Porém, junto com a caixa, também vieram outras coisas, muitas delas repetidas ou não cadastradas, e principalmente faltava a peça-chave que precisávamos para completar o quebra-cabeça.

O processo da US Navy, e seguido pela L-3, era baseado no conceito de manutenção e evoluiu à medida que foram sendo observadas novas necessidades. No entanto, antes, nunca havia sido realizado um processo de substituição de todos os painéis intra e extradorso das asas externa e central.

Além disso, nunca havia sido feita uma compatibilização e otimização das operações.

Por fim, o desafio final foi reestruturar todo o processo, digitalizá-lo e otimizá-lo, mantendo a compatibilidade com as instruções existentes para não afetar os aspectos de certificação.”

Ainda com relação ao P-3, é uma aeronave muito empregada ao redor do mundo, e muitos operadores estão as substituindo por outros meios, porém, muitos países ainda o manterão em voo por muitos anos. Além do Brasil, já surgiu uma demanda externa pela revitalização do conjunto de asas do P-3?

Cesar Silva – Sabemos que existe demanda, porém este processo precisa ser feito em conjunto, onde a FAB tem um papel fundamental, uma vez que ela é a proprietária dos ferramentais utilizados e que ela possui algumas aeronaves previstas para descomissionamento, que poderiam ser oferecidas para países interessados.

A Akaer é uma empresa que está sempre atenta às oportunidades do mercado, possui uma visão inovadora e um espírito de ousadia ao se lançar em novos desafios. Como essa postura tem sido determinante no crescimento da empresa desde sua criação?

Cesar Silva – Há alguns anos chegamos à conclusão de que no nosso universo a maioria dos trabalhos não é oferecida, as soluções são construídas em conjunto com os clientes e parceiros. Creio que o grande diferencial que oferecemos ao mercado é a disposição de buscar e construir soluções inovadoras conjuntas.

Hoje podemos dizer, e nosso portfólio comprova, que temos tido bastante sucesso em ambientes complexos e pouco definidos onde a maioria nem ousa tentar.

Cada vez mais temos sido procurados por empresas no mercado global com desafios cada vez mais complexos e abrangentes, e isso certamente se deve à nossa postura inovadora e principalmente aos resultados que atingimos nestes cenários desafiadores.

Hoje a Akaer atua em diversos programas dentro e fora do Brasil, um dos cases que chamam a atenção é a atuação no desenvolvimento de aeronaves com a turca TAI, como surgiu essa parceria?

Cesar Silva – Em 2019 começamos contatos formais onde as empresas se sondavam e buscavam oportunidades para testar o potencial de cooperação. A princípio estudamos em conjunto a cooperação em programas existentes, mas a pandemia retardou o processo. No meio de 2020, em pleno período surgiram duas oportunidades em programas que estavam se iniciando com muitas incertezas e restrições. Foi nesse momento que tivemos a certeza de que era a oportunidade certa para investirmos, todas as dificuldades e incertezas estavam presentes, os desafios técnicos eram enormes, os orçamentos muito limitados e as restrições enormes. Ou seja, tudo que outras empresas fogem, mas que enxergamos como oportunidades para construirmos soluções inteligentes.

Em quais programas turcos hoje a Akaer vem participando, e o que isso agregou à empresa brasileira?

Cesar Silva – Nos últimos 3 anos trabalhamos nos programas Hürjet, Hürkuş e ASOJ. Nestes programas já entregamos mais de 250 mil horas de engenharia com bastante sucesso.

Esses contratos contribuem para corroborar as capacidades da Akaer e a competência do nosso time de engenharia. Nesses projetos temos profissionais nas áreas de desenho e engenharia estrutural, projeto elétrico, hidráulico, sistemas de combustível e sistemas ambientais. No projeto HÜRJET, desenvolvemos a aeronave em tempo recorde, da concepção ao primeiro voo, entre março de 2021 a abril de 2023. Superamos todos os desafios com êxito porque temos uma base sólida de conhecimentos adquiridos ao longo de mais de três décadas. E ao adquirirmos capacidade de projetar aeronaves supersônicas de Ataque e Superioridade aérea, estamos gerando riquezas para o Brasil e colocando o país entre um seleto grupo que domina esta engenharia de ponta.

Além da parceria com a turca TAI, em quais desenvolvimentos tecnológicos a Akaer está presente no exterior?

Cesar Silva – Em geral, por questões contratuais, não podemos comentar sobre programas e clientes com os quais estamos trabalhando. Porém, posso dizer que estamos participando de dois programas nos EAU, um na Arábia Saudita, programas menores em outros países do MENA, e um programa no leste asiático. Estamos em fase final de negociação com programas na Suécia, EAU, leste Europeu, e MENA. 

No Brasil, a Akaer é um dos destaques no desenvolvimento do novo caça da Força Aérea Brasileira. Em quais programas nacionais de defesa a Akaer também tem atuado? 

Cesar Silva – Nós atuamos em praticamente todos os programas estratégicos no setor aeronáutico ao longo dos últimos 30 anos, incluindo asas fixas e rotativas. Trabalhamos também em alguns programas de mísseis e espaço. Estamos continuamente em contato com o MD e a FAB e estamos disponíveis para colaborar na avaliação de potenciais novos programas. 

O Brasil é um país onde o investimento em defesa infelizmente não tem a necessária atenção, e isso é algo que impacta na base industrial de defesa. Como é atuar na indústria de defesa brasileira? Quais os desafios enfrentados?

Cesar Silva – Certamente é uma questão de princípios e ideais, é preciso acreditar e ter vontade, se forem considerados apenas aspectos convencionais dentro do universo de empresas privadas dificilmente continuaríamos. O maior problema, muito maior que o volume de recursos específicos, é a falta de continuidade dos programas de defesa. Muitas vezes, nos últimos 50 anos, houve programas e iniciativas que renderam resultados muito bons e reconhecidos internacionalmente, porém sempre estas iniciativas são interrompidas e os esforços e recursos ou se perdem totalmente ou são minimizados pela descontinuidade.

Ainda com relação ao cenário interno, como a Akaer, uma indústria estratégica de defesa, vê o mercado brasileiro de defesa, e o que poderia mudar em relação a forma como são tratados os programas nacionais de defesa? 

Cesar Silva – Precisamos desmitificar alguns assuntos para entendê-los e buscar soluções efetivas. O primeiro ponto é com a questão do orçamento de Defesa, que deve ser avaliada dentro de um contexto muito mais complexo do que se tem feito atualmente, e o segundo ponto é a falsa crença de que o Brasil está isento de ameaças, que a nossa soberania não está sujeita a riscos.

Temos uma das maiores fronteiras terrestres do mundo, sendo uma parcela significativa em regiões de difícil acesso e controle. Temos um dos mais extensos litorais navegáveis do globo em uma posição estratégica no controle do Atlântico Sul. Temos muitos recursos naturais em terra e nos mares, temos as maiores áreas agricultáveis e reservas de água doce do planeta. Se não temos vizinhos que representam grandes ameaças convencionais, temos inúmeras ameaças assimétricas na forma de grupos de traficantes de drogas, armas, minérios e animais silvestres, de grupos terroristas, de empresas e grupos de interesses em busca de controle e vantagens a partir da biodiversidade e biofármacos, riscos de ondas migratórias, e sem falar em interesses geopolíticos de potências globais.

Diante deste cenário não temos dúvidas que faz muito sentido uma estratégia e uma política integrada de defesa e segurança. Isso, mais que exigir um aumento grande de orçamento, exige um esforço inteligente e integrado com foco de longo prazo. É uma política de Estado e não apenas de governos.

Na última edição da LAAD, presenciamos a assinatura de diversas parcerias e acordos pela Akaer. O que vem pela frente em relação a novos desenvolvimentos? A Akaer pretende adentrar novos nichos do mercado?

Cesar Silva – Inovar e buscar novos mercados e oportunidades faz parte do nosso DNA. Além de estar incutida na cultura da empresa, essa característica é um pilar fundamental da estratégia de crescimento e perpetuação. Estamos sempre buscando nichos, mercados, parceiros, etc.

Acreditamos que a única forma de prevermos o futuro é participarmos ativamente da construção deste futuro. Hoje além dos desenvolvimentos que estamos fazendo em programas com clientes e parceiros, temos 6 grandes projetos de P&D+I, 4 deles dentro dos 5 maiores programas lançados pela FINEP. Pelo menos outros 4 projetos estão sendo tocados com recursos próprios na busca de novas soluções inovadoras o que, além de incrementar o nosso portfólio, colabora com o crescimento tecnológico do ecossistema industrial brasileiro, o que é motivo de orgulho para toda a nossa equipe.

Finalizando, gostaria que explicasse aos nossos leitores o quão importante é hoje para um país o investimento em defesa, e como esse investimento retorna ao Brasil, a exemplo do sucesso da Akaer hoje no mercado internacional, como no bem sucedido programa turco Hurjet.

Cesar Silva – Além da visão tradicional de garantia da paz e soberania nacional, a visão expandida que inclui segurança e demais aspectos correlatos da vida do país e da sociedade mais que justifica os investimentos que hoje discutimos. Porém é mais que sabido que hoje a maior parte das tecnologias desenvolvidas e de uso em defesa são usadas de forma dual e trazem grandes benefícios para a sociedade em geral.

Por fim, são poucos os países que têm capacidade financeira de bancar sozinho seus investimentos e desenvolvimentos tecnológicos. A oportunidade de exportação tem sido fundamental para manter viva e expandir a capacidade tecnológica e inovadora das empresas Brasileiras nas últimas décadas.

 

Muito obrigado Cesar pela atenção, essa nossa breve conversa com certeza foi muito enriquecedora, e desejamos sucesso a AKAER e que venham novas conquistas.

Entrevista por Angelo Nicolaci

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