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Análise – Navios-tanque da “Classe Wave” e a Marinha do Brasil

Segundo uma postagem realizada pelo britânico “Navy Lookout” no Twitter no último sábado (10), a Royal Navy teria decidido pelo descomissionamento definitivo de seus dois navios tanque da classe “Wave” pertencentes a Royal Fleet Auxiliary (RFA), atitude justificada pela escassez de tripulantes.

Além desta notícia, foi especulado sobre o hipotético interesse britânico de oferecer esses navios ao Brasil e ao Chile, o que causou um verdadeiro alvoroço e inúmeras especulações nas mídias brasileiras.

Dada a repercussão desse tweet, resolvi tecer uma análise sobre o assunto em voga, traçando alguns pontos afim de esclarecer sobre a realidade atual dos fatos e a possibilidade de um destes navios ser ou não adquiridos pela nossa Marinha do Brasil.

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O primeiro ponto a se destacar, é que não houve qualquer posicionamento oficial da Royal Navy em relação a destinação que será dada aos dois navios, o que nos leva a conclusão que, não esta descartada a possibilidade dos mesmos serem mantidos na reserva da Royal Fleet Auxiliary, como ocorre com o RFA “Wave Ruler” (A-390), primeiro dos dois navios-tanque colocado na reserva, inicialmente em “Prontidão Reduzida”, o que se deu há três anos, quando em junho de 2020 passou a ser mantido em boas condições, pronto para reativação se necessário, porém, desde fevereiro do ano passado (2022), o “Wave Ruler” teve seu status alterado para “Prontidão Estendida”, que é quando o navio é mantido na reserva sem tripulação.

No final de 2018, muito se especulou sobre o suposto interesse britânico em transferir o “Wave Ruler” para Marinha do Brasil, informação que não se concretizou em uma oferta do navio ao Brasil.

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Já o RFA “Wave Knight” (A-389), segundo navio da Classe “Wave” a ser colocado na reserva, o que ocorreu em 22 de março do ano passado (2022), sendo retirado do setor operativo direto para o status de “Prontidão Estendida”, seguindo o mesmo destino incerto que o “Wave Ruler”.

Antes de prosseguir nesta análise, precisamos conhecer um pouco melhor a “Classe Wave”, afim de obtermos um panorama mais claro sobre suas capacidades e potencialidades de emprego, traçando assim uma visão objetiva sobre a real possibilidade de termos um desses navios operando sob nosso verde-louro pavilhão.

A “Classe Wave”

Composta por dois navios, a “Classe Wavefoi projetada para suprir os meios da Royal Navy, fornecendo combustível, comida, água potável, munição e outros suprimentos, surgindo a partir da necessidade de substituição dos dois navios-tanque remanescentes da “Classe OI”, projeto do meado dos anos 60, o “RFA Olna” e o “RFA Olwen” deslocavam 33.773t.

O primeiro navio da “Classe Wave”, o “RFA Wave Knight”, foi comissionado em 8 de abril de 2003, seguindo pelo “RFA Wave Ruler” em 27 de abril do mesmo ano, com seus 196,5 m de comprimento, 28,25 m de boca (Largura) e calado de 9,97m, construído com casco duplo, esses navios deslocam 31.500 toneladas! Só para efeito de comparação, o navio-tanque “Gastão Motta”, desloca 10.300t.

Os números da “Classe Wave” são surpreendentes, capaz de transportar 16.000 m3 de líquidos, dos quais 3.000 m3 de combustível de aviação e 380 m3 de água doce, além de 125 toneladas de óleo lubrificante, dispondo de um porão de 500 m3, possibilitando o transporte de diversos suprimentos, no convés é capaz de acomodar até 8 contêineres refrigerados de 20 pés, o que representa 150 toneladas de alimentos frescos. Sem sombra de dúvidas, a “Classe Wave” se enquadra perfeitamente no que podemos classificar como Navio de Apoio Logístico.

Os navios da “Classe Wave” contam com hangar capaz de operar uma aeronave UH-15 “Super Cougar”, por exemplo, o que confere ao mesmo maior flexibilidade de suporte logístico através do emprego de meios aéreos.

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Sua defesa é garantida por dois canhões DS-30B de 30mm, similares aos empregados no NAM “Atlântico”, além de metralhadoras, não dispondo mais dos sistemas CIWS Phalanx Vulcan, já removidos dos navios.

Um “Classe Wave” na Marinha do Brasil

Realmente a possibilidade de contarmos com um navio-tanque com as características da “Classe Wave”, a primeira vista soa como uma ótima oportunidade, porém, é preciso ter pé no chão e um olhar crítico embasado em pontos importantes que envolvem a aquisição de qualquer meio, os quais geralmente são ignorados pelos analistas, o que acaba resultando numa visão míope e que difere da realidade, apresentando uma analise que se olharmos mais a fundo, concluímos que se equivoca em diversos aspectos que tem um impacto direto no resultado final.

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Dentre os pontos que devem ser analisados, esta o custo operacional e logístico de um navio com estas características, e para exemplificar, o NAM “Atlântico” apresenta um deslocamento da ordem de 21.500t, ou seja, 10.000t a menos que o RFA “Wave Knight”, o que já demonstra o tamanho do desafio de se manter um colosso desse em plena capacidade operacional.

Ainda falando em custos, devemos considerar que além do custo de aquisição do navio, o qual ainda é desconhecido (uma vez que não houve qualquer posicionamento oficial britânico em relação a venda destes navios, muito menos uma oferta a Marinha do Brasil), existe o custo de se recolocar o navio em operação, lembrando aqui que o mar é um dos mais exigentes ambientes de operação, o que se nota claramente ao observarmos os efeitos da salinidade sobre as estruturas e equipamentos dos meios que operam no mar, demandando diversas técnicas para reduzir os efeitos da água do mar, como o uso de  Proteção Catódica para controlar a corrosão do casco dos navios, que são protegidos por um “metal de sacrifício” que é corroído no lugar do casco. Esse é apenas um exemplo, pois temos componentes eletro-eletrônicos e diversos equipamentos e maquinários que se empregam nos navios e estão sujeitos aos efeitos corrosivos da salinidade do mar. Tendo este conhecimento, chegamos a lógica de que um navio parado e sem uma tripulação para o manter em perfeitas condições, impreterivelmente demandará um maior custo para ser recolocado em condições adequadas de operação.

Olhando por essa óptica, o RFA “Wave Rule” esta parado desde 2020, enquanto o RFA “Wave Knight” esta há pouco mais de um ano, o que nos leva a supor que será preciso um bom trabalho de preparo para que estes navios voltem a navegar, embora não possamos afirmar qual dos dois navios está em melhores condições, sem que seja realizada uma inspeção técnica, pela lógica, podemos apontar o “Wave Knight” como sendo o que tem maiores chances de estar em melhores condições.

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A título de comparação, mesmo o NAM “Atlântico” que nos foi transferido pouco tempo após ser descomissionado pela Royal Navy, exigiu uma série de trabalhos de adequação e reparos, o que resultou em custos extra, o que podemos chamar de custo de reativação do navio, que também envolve os custos de envio da futura tripulação para receber treinamento e qualificação no novo navio.

Embora ainda só hajam especulações sobre a possibilidade de oferta dos navios da “Classe Wave” para outras marinhas, com o Brasil figurando entre os que podem receber uma proposta britânica, existem muitos fatores que podem tornam pouco atraente a oferta do navio-tanque, além dos custos de aquisição e reativação do navio, que é um dos principais fatores, temos ainda e não menos importante, os custos de operação do navio, pacote logístico envolvido e o que de fato será mantido no navio.

Comparemos com a aquisição do NAM “Atlântico”, ao ser vendido ao Brasil, teve diversos de seus sistemas removidos, como foi o caso dos sistemas de CHAFF, além de outros sistemas eletrônicos. O NAM “Atlântico” é um dos bem sucedido exemplos de compra com aquisição de pacote logístico e de ciclo de vida, envolvendo a contratação de duas empresas para prover manutenção e componentes de reposição afim de se manter um alto nível de disponibilidade do navio, iniciativa que se mostra acertada ao compararmos o índice de disponibilidade deste navio com o apresentado por outros navios que não possuem um arranjo logístico similar.

Fica claro que para se cogitar em adquirir um navio-tanque como o “Wave Knight”, é preciso considerar o custo de um pacote logístico similar ao firmado pela Marinha do Brasil com a BAE Systems e a Babcock para manutenir o NAM “Atlântico”, por exemplo.

Com toda certeza, a aquisição de um navio-tanque da “Classe Wave” iria representar um enorme ganho em capacidade operacional, pois o mesmo é capaz de suprir um Grupo Tarefa (GT) robusto, composto por exemplo, pelos navios: NAM “Atlântico”, NDM “Bahia”, NDCC “Almirante Saboia”, fragatas Classse “Niterói” e Rademaker, além da corveta “Barroso”, por um longo período, garantindo apoio logístico adequado á Esquadra.

Como já dito, tudo depende de uma série de fatores para determinar se trataria de uma boa compra, pois no momento não temos nada definido em relação a estes navios, apenas que os mesmos estão desativados e colocados na reserva da Marinha britânica, e no estado em que estão sendo mantidos, sem tripulantes, o tempo é um dos fatores contra a viabilidade de transferência destes navios de forma vantajosa.

Solução Nacional ?

Um fator que pode pesar contra a possibilidade de aquisição de um dos navios da “Classe Wave”, é o interesse manifestado pelo Governo Federal de incentivar a indústria de construção naval brasileira, o que pode levar a obtenção por construção de um novo navio-tanque, gerando empregos no setor de construção naval, garantindo novo fôlego a estaleiros nacionais ociosos, garantindo um elevado índice de nacionalização do navio e com isso gerando retorno a nossa economia, seguindo o exemplo de outros programas, como o PROSUB, “Classe Tamandaré” e “NApAnt”.

Lembrando que em 2010, a BAE Systems chegou a propor ao Brasil o projeto de um navio-tanque similar a “Classe Wave”, adaptada para atender às necessidades específicas da Marinha do Brasil.

Não podemos descartar esta possibilidade, porém, tudo invariavelmente esta ligado diretamente ao orçamento destinado a nossa Marinha e a garantia de manutenção orçamentária no médio e longo prazo, afim de assegurar a continuidade dos programas de obtenção e sua manutenção.

A Realidade Brasileira

Hoje enfrentamos uma grave crise de obsolescência em bloco, que somada a falta de uma política de reaparelhamento da Esquadra Brasileira, que venha a garantir os recursos orçamentários necessários para obtenção de novos meios, resulta na alarmante redução de nossa Marinha, a qual tem visto diversos de seus meios chegando ao limite de seu ciclo operativo, sendo descomissionados sem que haja um novo meio para os substituir, uma situação preocupante se pararmos para analisar o tamanho de nossa “Amazônia Azul” e compararmos com o números de meios disponíveis para sua defesa.

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Nossa Marinha hoje conta com um único navio-tanque, o “Almirante Gastão Motta”, que conforme já citamos, desloca 10.300t, sendo capaz de transportar 5.000t de combustíveis, e apesar de ter sido construído no final dos anos 80, sendo comissionado em 1991, apresenta limitações técnicas para operar fora de nossas águas jurisdicionais, sendo um dos últimos navios construídos em casco simples, não atendendo as normas que hoje exigem que navios-tanque tenham construção em casco duplo a fim de proteger o oceano de eventuais vazamentos.

No momento, o “Almirante Gastão Motta” esta sendo submetido a um programa de revitalização, devendo retornar ao setor operativo após a finalização do programa, o que na prática significa que temos uma lacuna em nossas capacidades de abastecimento da Esquadra, o que pode limitar o raio de ação de um Grupo Tarefa.

Atualmente, a aquisição de novos meios se faz necessária e urgente, mas depende que o Congresso Nacional e o executivo, retirem os “Antolhos” e passem a enxergar as necessidades estratégicas de nossa nação, e entendam que cabe a Marinha do Brasil a missão de defender não só nossa soberania, mas os interesses brasileiros no mar onde se faça necessário, não se esquecendo de suas atividades subsidiárias e responsabilidades no patrulhamento e fiscalização de nossas águas.

Uma recente declaração do Comandante da Marinha, Alte Esq. Marcos Sampaio Olsen, durante audiência na Comissão de Relações Exteriores do Senado, expôs a preocupante situação da Marinha do Brasil, que precisará desativar até 40% de seus atuais meios, devido a insuficiência do orçamento para custear todas as suas despesas.

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Para que possamos pensar em novas aquisições, como uma hipotética compra do “RFA Wave Knight” ou “RFA Wave Rule”, ou a obtenção por construção de um novo navio-tanque, antes é preciso rever o orçamento destinado pelo Governo Federal para nossa Marinha, e cobrar de Brasília uma postura mais responsável com relação as nossas capacidades de defesa, pois a melhor garantia de paz, é estar prontos para defendê-la, principalmente diante de um mundo cada dia mais instável, onde a escassez de recursos naturais, tem despertado a cobiça, e o Brasil desponta como uma das maiores fontes de recursos naturais neste novo século.

Por Angelo Nicolaci

 

 

 

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