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15 de Novembro: Entre Golpes e Ideais – A Complexidade da Proclamação da República

Há 134 anos, em 15 de novembro de 1889, ecoava a proclamação da República do Brasil, um marco que transcende o tempo e suscita uma indagação persistente: foi a república conquistada legitimamente ou gestada por um golpe dissimulado?

A complexidade desse episódio histórico revela nuances que muitas vezes escapam ao entendimento comum. A trajetória que levou o Marechal Deodoro da Fonseca a proclamar a república em 1889 é permeada por descontentamentos, contradições e ações motivadas por uma elite insatisfeita, distante do clamor popular. O Brasil da época, sob o comando do visionário Imperador D. Pedro II, trilhava uma senda de transformações que despertavam resistências entre os detentores do poder econômico e político.

A proclamação da república, longe de ser um anseio genuíno da sociedade, refletia interesses particulares, como a contrariedade ao fim da escravidão, medida que desagradava àqueles que lucravam com o comércio de escravos. A visão arrojada de D. Pedro II, pautada em reformas sociais e na iminente reforma agrária, colidia diretamente com os anseios de uma elite que preferia preservar seus privilégios.

A falta de aprofundamento na compreensão desses eventos, perpetuada pelo descaso com a educação no Brasil, contribui para uma visão superficial dos acontecimentos que moldaram a transição de 1889. Esse período, crucial para a nação brasileira, se desenha como uma década marcada por mudanças cruciais e pela proclamação da república, um capítulo que, em sua essência, pode ser interpretado como o primeiro golpe na história do Brasil.

Contrariando a narrativa tradicional, as ideias republicanas não conquistaram popularidade entre os brasileiros da época. O apego à figura do imperador e ao sistema monárquico era evidente, como atestam os escassos representantes republicanos eleitos para a Câmara de Deputados em 1884. Esse cenário revela uma rejeição clara às ideias republicanas, sinalizando que a transição de regime não foi respaldada pela vontade popular.

Mesmo diante dos esforços para disseminar os princípios republicanos, os defensores dessa causa falharam em angariar apoio popular para uma instauração pacífica da república. A conclusão de que o caminho não seria pacífico levou os líderes republicanos a orquestrar um golpe militar. Essa virada dramática exigiu a aproximação e persuasão do Marechal Deodoro da Fonseca, figura que mantinha uma amizade pessoal com o Imperador Dom Pedro II, o que demandou hábil manipulação.

Surge então, um aspecto menos conhecido dessa trama histórica: Marechal Deodoro, apesar de sua proximidade com o imperador, era um defensor ferrenho do monarquismo. A intrincada articulação para conquistar seu apoio revela a complexidade das relações e a necessidade de manipulação nos bastidores.

Dom Pedro II, que ascendeu ao trono aos 5 anos de idade, passou sua infância dedicado a preparar-se para um reinado que se revelou transformador para o Brasil. O monarca, defensor declarado do abolicionismo desde 1850, via na escravidão uma vergonha nacional. O fim gradual da escravidão, marcado pela Lei do Ventre Livre em 1871 e pela posterior Lei Áurea em 1888, suscitou resistências entre os donos de escravos, que viram na proclamação da república uma oportunidade de vingança.

O golpe republicano, articulado nos bastidores, envolveu intrigas e conspirações. A falsa notícia da prisão do Marechal Deodoro e do tenente-coronel Benjamim Constant precipitou os eventos. No dia 15 de novembro de 1889, Deodoro, inicialmente com o objetivo de demitir o primeiro-ministro Visconde de Ouro Preto, acabou por proclamar a república no Rio de Janeiro.

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Após a proclamação, Dom Pedro II, em um ato de dignidade, recusou a indenização proposta pelo novo governo republicano, questionando a autoridade dos golpistas sobre os recursos públicos. O povo brasileiro, mais uma vez, assistiu passivamente às mudanças, sem ser consultado sobre sua preferência pela república. As elites provincianas, antes líderes dos partidos monárquicos, rapidamente aderiram ao novo regime, revelando a natureza oportunista das alianças políticas.

A constituição republicana inicial, ao contrário das expectativas populares, revelou-se conservadora e elitista. A reação à revolta popular, expressa em eventos como Canudos, Contestado e na Revolta da Chibata, expõe a fragilidade da democracia proclamada pela república. O massacre dessas populações revoltadas, rotuladas como atrasadas, demonstra a contradição entre os princípios proclamados e a realidade repressiva.

É vital lembrar que as primeiras favelas surgiram após a proclamação da república, resultado da quebra do compromisso republicano de realizar a reforma agrária prometida por Dom Pedro II. Esse descaso ao longo das décadas culminou na crise de segurança que hoje aflige o Rio de Janeiro, evidenciando as consequências de decisões políticas desconectadas da realidade social.

A República, desde sua gestação, carrega consigo as marcas da elitização do poder, alimentada pela corrupção que desvia recursos públicos em benefício de interesses particulares. O ato que deu origem à república, longe de ser democrático, foi impulsionado pelos anseios de uma elite privilegiada e autossuficiente.

Assim, ao celebrarmos os 134 anos da República, somos instados a refletir não apenas sobre os eventos de 1889, mas sobre a natureza intrínseca do poder e suas repercussões ao longo da nossa história. A república, em seu nascimento, carregou consigo contradições e desafios que ainda reverberam em nossa sociedade, chamando-nos a uma análise mais profunda de nosso passado para compreendermos o presente e moldarmos o futuro com sabedoria e discernimento.

 

Por Angelo Nicolaci

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