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Como é feito o treinamento dos pilotos de “Seahawk”?

No dia 15 de dezembro, uma aeronave SH-16 “Seahawk” operada pelo EsqdHS-1 “Guerreiro”, protagonizou o resgate de um adolescente que precisou ser removido de um navio de cruzeiro rumo a um hospital em terra. As imagens deste EVAM (Evacuação Aeromédica) ganharam as redes sociais, onde foi possível acompanhar a perícia da tripulação envolvida naquele resgate.

 

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Outro episódio que envolveu a perícia e treinamento das tripulações de SH-16, ocorreu em novembro, durante o Exercício “UANFEX-2022”, quando uma aeronave “Seahawk” realizou a movimentação devum Obus “Light Gun” 105mm, entre o NDM “Bahia” e uma posição pré-estabelecida pela artilharia em terra.

 

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Diante destes episódios, resolvemos apresentar ao nosso público um pouco sobre o treinamento destes verdadeiros heróis alados, e você confere uma interessante conversa que nosso editor teve, em outubro deste ano, com Comandante do EsqdHS-1, CF Maffei.

 

No dia 16 de outubro nosso editor Angelo Nicolaci, visitou as instalações do 1° Esquadrão de Helicópteros Antissubmarino (EsqdHS-1 “Guerreiro”), e Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN) com intuito de conhecer melhor os benefícios experimentados pelas tripulações que operam nossos helicópteros SH-16 “Seahawk” com a introdução do Simulador de Voo Tático Operacional que no próximo mês completa um ano de operação, além de ver de perto como funciona esse novo ativo na formação de nossos aviadores navais.

 

Fomos acompanhados nesta missão de nossos parceiros integrantes da ABRADEF, Luís Camões do DefesaNews e Welter Mesquita do AeroDefesaNaval, chegando pela manhã no “ninho” da Aviação Naval Brasileira, a Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA), onde fomos recebidos no EsqdHS-1 pelo seu Imediato CF Fabiano Dias, que nos falou um pouco sobre as atividades do Esquadrão e depois fomos recebidos pelo Comandante do EsqdHS-1, CF Maffei, com quem conversamos sobre a introdução do Simulador de voo tático operacional na formação e qualificação dos tripulantes do SH-16.

 

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Nicolaci: Bom dia Comandante, obrigado por nos receber em seu Esquadrão, e para começar gostaria de saber o que representa de ganho para o Esquadrão, a adoção do simulador para o SH-16 Seahawk?

 

CF Maffei: Bom dia Nicolaci, pegando um breve histórico desde novembro do ano passado, quando nós recebemos oficialmente o simulador vindo do setor de material, de lá para cá, o Esquadrão teve um excelente ganho operacional, ou seja, a gente consegue trabalhar no simulador em todas vertentes possíveis de adestramento. Temos ali a parte que trabalha o treinamento de emergências, conseguimos trabalhar na questão do voo “MOST” (Mission Oriented Simulator Training), que é um voo de missão orientado no treinamento de fator humano, pegando ali todas as condições voo inclusive com meteorologia, simulando a missão enfim, para treinarmos a interação entre os pilotos e a tripulação, podendo acompanhar as respostas aos estímulos com uma psicóloga, e ainda podemos simular os cenários táticos em que podemos empregar nossa aeronave, onde podemos realizar uma missão tática englobando todos os procedimentos que o Esquadrão pode fazer e se preparar para uma missão real.

 

Além do ganho que citei anteriormente, o simulador é hoje uma importante ferramenta na qualificação dos pilotos que chegam ao Esquadrão, então nós conseguimos qualificar os novos pilotos e adestrar os que já estão operando o SH-16, ou seja, prepara-los da melhor maneira possível, esse é um dos pontos importantes em termos de ganho dentre vários pontos.

 

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Nicolaci: E como funciona a qualificação desse pessoal que chega novo no Esquadrão?

 

CF Maffei: Assim que o piloto chega ao Esquadrão, ele já está em processo de qualificação, considerando parte teórica e depois passando a parte prática. Então, hoje com o simulador, a parte prática é um mix, onde o piloto faz o simulador e depois o voo real na aeronave, com isso conseguimos reduzir as horas de voo reais, inserindo o voo de simulador nesse processo todo. Ou seja, é um ganho de hora/voo que a gente economiza, e para o piloto é excepcional, porque ele fica em uma condição segura, onde não precisa se preocupar com fatores adversos, como colisão com pássaros, tráfego de outra aeronave na área em que esteja voando, o que permite que ele possa focar exclusivamente no seu adestramento ali, realizando uma completa imersão, com check-list da missão que esteja se qualificando, além de proporcionar ao instrutor um cenário no qual ele não precisa se preocupar com nada além da instrução que esta transmitindo ao piloto. Como eu falei anteriormente, o ganho é exponencial, muito grande, ele foca especificamente no adestramento.

 

Então nós hoje estamos formando o primeiro piloto qualificado no modelo, ele já realizou sua formação nessa cinemática. Ele realizou o “Ground School” depois passando a parte prática de voo com simulador em conjunto com voo real.

 

E com feedback deste piloto, somado aos outros que participaram dessa cinemática, o resultado é muito melhor do que o obtido por quem não participou desse processo incorporando o simulador, ou seja, ele tem um ganho real onde massifica os procedimentos. Ali o piloto assimila melhor os procedimentos, ele faz o check-list na hora ali de dar partida na aeronave e todos procedimentos exatamente como será na aeronave real, ou seja, essa nova geração já sente os efeitos desse ganho.

 

Nicolaci: Comandante, em relação ao adestramento que o simulador nos possibilita realizar, comparando com o adestramento anterior a introdução dele, o que há de mudanças no que diz respeito ao conhecimento que se é possível obter com uso do simulador?

 

CF Maffei: Existe uma série de fatores que o simulador agrega no adestramento que não era possível antes, isso sem contar a inexistência de interferência externa durante o programado para o voo de adestramento no simulador. Como já citei anteriormente, existem os os fatores de risco que acabam tirando o foco do piloto, como aves próximas da aeronave em voo, o tráfego aéreo por exemplo, e isso exige atenção e decisões do piloto, o que inexiste no simulador, exceto quando é parte do treinamento inserir esses fatores de stress para avaliar as reações do piloto e sua tripulação. Então, durante um voo para qualificação em SAR (Search And Rescue, ou Busca e Resgate em português), por exemplo, o piloto não precisa se preocupar com fatores externos aos procedimentos inerentes a manobra prevista, ele tem a possibilidade de focar 100% na sua missão, com isso o ganho dele no simulador é bem maior.

 

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Nicolaci: E hoje, como esta o adestramento das tripulações do Esquadrão? Qual quantitativo de uso pelos pilotos?

 

CF Maffei: Hoje todos nossos pilotos já passaram pelo simulador, e continuam realizando adestramento nele. Todos os dias temos nosso pessoal realizando adestramentos no simulador.

 

Temos disponibilizadas três horas pela manhã e três horas a tarde, para que nosso pessoal seja adestrado nas mais diversas qualificações, e como eu já citei, podemos fazer um variado leque de missões no simulador, o que possibilita manter nosso pessoal em constante aperfeiçoamento.

 

Vou citar um exemplo, antigamente o piloto fazia em média um voo de “emergência” ao ano, hoje com simulador já é possível dobrar esse número, com vários pilotos já tendo realizado duas vezes e indo para terceira vez no treinamento, porque antes, esse treinamento era feito no exterior, nos EUA, o que demandava maior custo e também a disponibilidade do pessoal para viajar. Hoje temos uma estrutura completa de simulação, que nos permite ir muito além até do que era possível antigamente, e tudo isso aqui do lado, onde nossos pilotos podem realizar o treinamento várias vezes.

 

Nicolaci: Além dos ganhos no quantitativo do treinamento, o que mais pode-se destacar em termos de ganho para as operações do Esquadrão?

 

CF Maffei: Além do que já falamos, existe algo imensurável, que é a segurança que se ganha, o piloto esta muito mais condicionado e capacitado a lidar com os mais variados tipos de emergência e panes, ele sabe exatamente como lidar se perder um motor ou o rotor de cauda em voo, então o simulador te dá toda essa confiança e conhecimento que resulta no menor tempo de resposta do piloto, e isso proporciona maior segurança nas operações aéreas do nosso Esquadrão.

 

Nicolaci: Em média, quantas horas um piloto faz hoje de simulador por mês?

 

CF Maffei: Então, a média hoje do esquadrão esta na faixa de 70 horas por mês no simulador, se considerarmos que hoje temos 20 pilotos, o que dá uma média de 3 a 4 horas de voo de simulador no mínimo por piloto ao mês.

 

Mas essa média varia um pouco, pois depende das qualificações que estão sendo realizadas, por exemplo, um piloto que esta realizando o cartão de voo por instrumentos, que foi um outro importante ganho para gente, ele voa direto, tem muita hora de simulador para ele cumprir as horas de voo do cartão de voo por instrumentos. Ou seja, vai depender do período que demanda a qualificação dele.

 

Nicolaci: Comandante, e com relação aos custos que se tem ao empregar o simulador? pois imaginamos que uma hora de simulador é muito menor que uma hora de voo real na aeronave.

 

CF Maffei: Bom, hoje nós demandamos 153 horas para qualificação de um piloto, e com emprego do simulador nesse processo, dessas horas, pelo menos 60 horas em média, são feitas em simulador. É uma economia considerável se colocar na ponto do lápis.

 

Também economizamos muito realizando treinamentos no simulador, onde podemos cumprir, por exemplo, missões de salvamento simulado, reproduzindo todos procedimentos previstos neste tipo de voo, o que permite adestrar as tripulações de forma plena, com isso, dispensamos fazer esse treinamento em voo real. Ainda não quantificamos de uma maneira geral todas as missões, mas para qualificação de um piloto que é nossa base.

 

Nicolaci: Com relação ao adestramento dos Operadores de Sensores, como é realizado o treinamento deste importante componente da tripulação, e quais ganhos trouxe o simulador?

 

CF Maffei: Esse foi outro ganho excepcional, porque o Operador de Sensores na missão principal da aeronave, que é ASW (Guerra Antissubmarino) e ASuW (Guerra Antissuperficíe), em missões de esclarecimento, ataque e emprego do sonar, eles trabalham em conjunto, ou seja, sempre temos dois operadores lá atrás e dois pilotos no cockpit da aeronave, e esse conjunto pode ser feito no simulador.

 

Quando você for lá no CIAAN conhecer o simulador, você verá dois módulos, um chamado WTT, que é onde são adestrados os Operadores de Sensores, e o módulo FT, onde se adestram os pilotos. Então, quando realizamos o treinamento da tripulação, podemos unir esses dois módulos, permitindo total interação entre a tripulação, onde todos estão envolvidos no mesmo cenário, podendo se comunicar e suas respostas são integradas de forma que, a sensação proporcionada é a mesma na qual estivessem operando em um voo real, sendo possível cumprir um variado leque de missões, seja com emprego de sonar, emprego de radar, FLIR ou lançamento de míssil, o que torna possível simular uma missão de guerra mesmo.

 

O simulador nos possibilita realizar esse treinamento conjunto da tripulação, ou em separado, onde no módulo WTT treinamos nossos Operadores de Sensores em variados cenários. Essa modularidade nos permite maior flexibilidade nos adestramentos, onde enquanto no módulo WTT se treina emprego de um determinado sistema, no módulo FT os pilotos podem estar realizando outro tipo de qualificação, como exemplo, voo com OVN (Óculos de Visão Noturna).

 

O módulo WTT nos deu um ganho incrível na qualidade de treinamento, sendo possível treinar nossos Operadores de Sensores de forma plena em cada sistema, sendo possível realizar treinamento só de sonar, ou radar, além da possibilidade de adestrar emergência de sonar.

 

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Nicolaci: Como era esse treinamento dos operadores de sensores antes do simulador?

 

CF Maffei: Antes eles não tinha treinamento assim, antigamente era real no voo. Nós temos o estágio de radar do piloto e o estágio de radar do operador, nós alinhavamos ambos para coincidir e voavamos sobre o mar, lá na “guerra” digamos assim, onde existem diversos fatores dificultantes externos, conforme ja citei, e a tripulação tinha que se dedicar ao treinamento daquele sensor ali naquele cenário. Hoje não é mais assim.

 

Nicolaci: O simulador além de reduzir os custos da qualificação dos pilotos e a tripulação, também oferece maior segurança no sentido de permitir que as tripulações sejam levadas a exercitar os procedimentos em um cenário isento de riscos, onde se a manobra resultar em crash da aeronave, não há problemas, basta resetar o simulador e recomeçar. Como o senhor vê essa facilidade que o simulador oferece de permitir que os pilotos errem o quanto for preciso para atingir a “perfeição”, principalmente nas manobras de emergência, que pode ser o diferencial entre a vida ou morte num cenário real?

 

CF Maffei: Sem sombra de dúvidas essa repetição é excepcional para assimilar os procedimentos, naquelas três horas que eles estão ali imersos na simulação, eles tem a oportunidade de focar nos procedimentos em que tenham maior deficiência para se aprimorar, e o instrutor tem essa visão, ele identifica isso e quando necessário realiza a repetição daquele cenário, basta apertar o reset e reiniciar, até que o tripulante atinja o nível satisfatório naquele quesito, coisa que você não consegue fazer no voo real, pois além dos riscos envolvidos, existem os custos da hora de voo, por exemplo, entre outros fatores que no simulador não existem.

 

Nicolaci: Qual a diferença comparando o debriefing feito no simulador e o feito no simulador? Como isso influência nos resultados da instrução?

 

CF Maffei: No simulador nós temos um sistema de câmeras e registros que nos permite avaliar as reações da tripulação, onde conseguimos inclusive ver como os pilotos reagem sob stress, como eles interagem entre si, e isso nós podemos utilizar para realizar a avaliação psicológica, avaliar o comportamento na cabine, sendo uma estrutura ímpar de debriefing, e não só o debriefing , mas fazemos também o briefing de voo lá, assim realizando literalmente todo voo, desde a fase de planejamento com o briefing, até o feedback e avaliação no debriefing.

 

Nicolaci: No simulador é possível simular situações completamente adversas?

 

CF Maffei: Sim, o instrutor pode criar os mais adversos cenários, ele pode colocar uma situação caótica lá, podendo inserir uma condição meteorológica das piores possíveis, por exemplo, nuvens cúmulos nimbos, temporal, chuvas, rajadas de vento, ele pode desestabilizar a aeronave toda, no cenário de operações aéreas embarcadas, pode alterar as condições de mar, podendo colocar o navio em condições de mar 5. Em resumo, ele pode criar uma situação extrema, e você acredita naquilo, dado o alto nível de realismo que o simulador entrega, mesmo não sendo um simulador “Full Motion”, você tem a sensação de realmente estar voando a aeronave, com uma projeção de 180° de alta resolução (4K), e você tem o som, tem o assento que ajuda nesse processo de imersão, vibrando e movimentando de acordo com a aeronave na simulação no eixo vertical.

 

Nicolaci: Comandante, para finalizar, gostaríamos de saber com relação ao adestramento do Esquadrão, hoje existe mais alguma necessidade em termos de simuladores no EsqdHS-1?

 

CF Maffei: Hoje pensando no EsqdHS-1, nós estamos realmente no “estado da arte” em termos de simulação, o que nós temos hoje proporciona um ganho exponencial, ampliando a qualificação de nossas tripulações de forma a garantir ganhos em qualidade e segurança nas operações aéreas do Esquadrão.

 

Com a introdução do simulador, existe uma grande economia em horas de voo, isso considerando apenas a qualificação base, mas realizamos mais que isso. Por exemplo, podemos fazer a preparação das tripulações para missões futuras, inserindo o cenário no qual irão operar, e nesse sentido, como hoje que temos pilotos lá realizando missão de voo com OVN, missão que só deverão desempenhar no ano que vem.

 

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Nicolaci: Comandante, no sentido da interoperabilidade entre as Forcas Brasileiras, além do Seahawk, na Marinha do Brasil, o Exército Brasileiro e a Força Aérea, também operam duas versões distintas do “Black Hawk”, é possível que os pilotos destas aeronaves usufruam dessa infraestrutura que possuímos aqui?

 

CF Maffei: Na visão que eu tenho, certamente pode ser utilizado sim, apesar das diferenças na configuração de aviônica que cada versão tenha, muitos procedimentos, principalmente na parte de emergência, pois os motores e os rotores de cauda são os mesmos, além de outros componentes que são semelhantes entre os Black Hawk e o Seahawk, o que torna possível simular situações no adestramento destas tripulações, assim como ocorria conosco quando fazíamos treinamento no simulador de Seahawk da Marinha dos EUA (US Navy), que diferente da aviônica de nossas aeronaves que é toda digital (Glass-Cockpit), é toda analógica, e mesmo assim atendia ao nosso adestramento, com procedimentos de emergência iguais ali, e o nível daquele simulador era inferior ao que hoje temos aqui, que oferece um alto nível de realismo e possibilitaria simular procedimentos e mesmo missões, como o SAR que é uma missão que eles também fazem.

 

Nicolaci: Muito obrigado Comandante Maffei por nos receber aqui hoje em seu Esquadrão, compartilhando conosco e nosso público um pouco sobre a introdução do simulador de voo tático operacional do SH-16 no adestramento e qualificação de suas tripulações.

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